quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Colecionismo no Brasil: Um processo em evolução.

É certo que o segmento do colecionismo de toys e afins no Brasil ainda está engatinhando em comparação aos EUA e outros países de 1º Mundo, mas vejo também como um hobby emergente.
Em contraponto, de um lado temos uma postura completamente retrógrada por parte de quem deveria ter maior interesse, muitos fabricantes e distribuidores do ramo. Uma grande parcela ainda vê seu principal público alvo consumidor nas crianças, não acordaram para explorar o público colecionador que consome seus produtos todos os meses do ano, e não somente em esporádicas ocasiões e datas específicas. De outro lado temos uma parcela de colecionadores que atuam de forma ainda imatura.

Temos os colecionadores mais experientes e maduros, que cultuam o hobby de forma séria mas não obsessiva, sabem ter paciência e esperar as melhores oportunidades para adquirir seus itens mais desejados, sabem o quanto de seu orçamento podem destinar ao hobby sem comprometer suas despesas e compromissos pessoais mais importantes, sabem encarar o hobby como diversão e não obrigação. Para um colecionador de verdade, eu creio que o maior valor de um item de sua coleção é o seu valor histórico, na conotação nostálgica e afetiva no item em si e o que o mesmo representa para sua história pessoal, e não no valor monetário da peça...O valor monetário é mero detalhe que determina quando e se a peça pode ser adquirida.
Temos também os colecionadores acumuladores, muitos que não fazem ideia do que tem em seus acervos pessoais, ao ponto de comprar peças em duplicata por "esquecer" que já as possuíam. Seu prazer está na quantidade e não na qualidade...Compram figuras de personagens que nem conhecem, ou as vezes nem gostam tanto, HQs que nunca leram, filmes que demoram anos para ver...Pois o objetivo principal é "completar" as supostas coleções...Independente da importância individual no conteúdo das mesmas.
E temos os colecionadores compulsivos, esses são os famosos compradores compulsivos, que, como em qualquer bem de consumo, estão também entre os consumidores de toys e afins. Seu prazer está somente no ato da compra, na aquisição do item...Após isso, o item em si é quase peso morto para a pessoa...Que corre atrás da próxima compra, e da próxima, e assim por diante...Até chegar ao ponto de ter uma coleção completa ou quase completa...e vender tudo, as vezes muito abaixo do que valem ou pagaram (pra sorte dos verdadeiros colecionadores) e começar do zero outra coleção. Esse caso já é patológico e precisa de ajuda profissional, o problema é que na maioria das vezes a pessoa não reconhece isso como um problema, e justifica para si próprio e outros através do argumento que é um "colecionador".
No meio disso tudo, temos os "Atravessadores", ou como dizemos na gíria do meio, os "Scalpers"...Aqueles que aprenderam a tirar proveito dos obsessivos e acumuladores, que precisam completar as suas coleções a todo custo, e dos incontroláveis compulsivos, que precisam comprar determinado item antes que acabe. Com isso, todos são prejudicados...Todos colecionadores...sejam experientes, iniciantes, acumuladores ou compulsivos, não importa, todos perdem e só os espertos Scalpers ganham.

Peças muitas vezes não tão raras acabam sendo inflacionadas demais em seus valores, a quantidade das mesmas distribuídas é razoável e até suficiente para suprir a demanda dos que as querem, mas uma parcela grande acaba nas mãos dos tais atravessadores, que é claro, vão tirar proveito da ansiedade de muitos para faturar um lucro significativo.
No geral, as maiores dificuldades de cultuar um hobby de colecionar action-figures, toys e afins, é causada pelos próprios colecionadores...Isso não é de hoje, já acontece há anos...Mas com o crescimento e popularidade maior do hobby, difundido amplamente nos tempos atuais pela Internet, as dificuldades crescem na mesma proporção.
Na verdade, não existe uma forma certa ou errada de se colecionar algo...Mas há formas mais positivas de se cultuar um hobby.
E após mais de 20 anos colecionando, acertando e errando, aprendi algumas.
Valorizar um item antigo, vintage, fora de linha de produção e de um fabricante extinto é compreensível...Mas supervalorizar um item que foi lançado há pouco tempo, de uma coleção em distribuição, de uma linha em produção por um fabricante ativo...É dar um tiro no próprio pé como colecionador.
Os chamados toys colecionáveis, sejam figuras articuladas, miniaturas em metal ou plástico estáticas, réplicas de carros e veículos diversos, ou estátuas e bustos de resina ou porcelana, etc...Compõem um mercado bem instável e imprevisível...Uma peça que hoje custa um valor alto pode estar muito barata depois de algum tempo e vice-versa. Tudo depende da demanda e procura. Então não existe uma fórmula de negócios na qual um item certamente será mais valorizado com o tempo, ou ficará muito raro. Então para os Scalpers o interesse é tirar proveito do momento de sucesso de uma coleção e da ansiedade dos interessados na mesma.

O valor que alguém pede por um item, nem sempre é o que o item realmente vale, por isso é interessante sempre o colecionador realmente conhecer o item que deseja, se realmente o valor pedido condiz com a realidade, se trata-se de algo realmente raro...Pois se há quem abusa em valores pedidos, é porque há quem aceita pagar tais valores...Uma vez que não existam compradores interessados, as opções do vendedor são duas, ou reduzir para um preço justo e condizente, ou ficar com o mesmo encalhado.

Vi muitos justificando o preço alto pago, por medo de não conseguir mais o tal item depois. Isso realmente pode acontecer...Mas...É muito mais provável um item similar ou ainda "melhor" chegue ao mercado...Isso acontece sempre...Linhas hoje tidas como as melhores, amanhã serão vistas como algo simplório...é o processo natural de evolução que acontece em tudo.

A quantidade é uma consequência natural do colecionismo, essa vem com o tempo sempre...E com isso, também uma das maiores dificuldades que todo colecionador enfrenta cedo ou tarde, a limitação de espaço físico para acomodar sua coleção. Então colecionar de forma seletiva sempre é uma boa opção, isso não vai impedir do colecionador enfrentar o problema, mas vai retardá-lo mais tempo.
E por fim, uma regra simples da vida...A gente recebe o que dá. O ato de colecionar algo já é por sua natureza algo egoísta mesmo, afinal colecionamos o que gostamos para nós mesmos...Mas, é possível tirar coisas positivas do hobby, principalmente consolidando amizades. É perfeitamente natural como em qualquer segmento social encontrarmos pessoas boas e más no meio do colecionismo, os generosos e os egoístas, os justos e os oportunistas, os honestos e os invejosos...Mas a maneira como nos portamos acaba agregando ou afastando naturalmente com quem convivemos. Quem ajuda, compartilha e doa, seja conhecimento ou bens materiais sempre ganha na mesma proporção...E quem só pensa em si e no que pode ganhar, termina só, como uma grande coleção de amigos de plástico e de veículos em miniatura que não levam a parte alguma.
O valor de uma pessoa está no que ela é...Não no que ela tem! 
Para o crescimento do colecionismo como algo positivo e bom, é fundamental uma postura positiva e boa do colecionador...Quem mais ganha é o mesmo.
http://www.saladejustica-br.com/


17 comentários:

TannerBil disse...

Excelentes definições de mercado, e dos comportamentos em que vemos no meio do colecionismo.
Ótima matéria.
Parabéns
TannerBil

Moisa disse...

Bom dia, Eder!

Parabéns pelo artigo de qualidade, só poderia ter sido escrito por um colecionador dedicado e experiente como você.

Grande abraço!

Mister Quadrinhos disse...

Um show de informação sobre esse mundo do colecionismo e suas paixões

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Barão von Douglas disse...

Meu grande amigo Eder, ou posso lhe dizer,
Meu irmão!
Eu adorei a matéria, foi um dos assuntos que estávamos conversando na última vez ao telefone e concordo com tudo o que disse e assino embaixo.
Uma excelente comparação do que é verdadeiramente o significado do colecionismo.
Um grande abraço de seu fã.

reportermovel.com disse...

Que matéria bacana. Emocionante até.

Doalcey Rocha disse...

Saudações Eder,

Brilhante o seu texto, resume muito bem o que é o colecionismo independente do item colecionado. Parabéns pelo texto.

RJ.Santos disse...

Grande matéria Eder!
Há ainda, entre os colecionadores os que, como eu, sem contato com muitos outros colecionadores, vai aprendendo a medida em que coleciona. Já perdi boas oportunidades por não atinar para o raridade do artigo, já comprei toys que, descobri depois, havia versões melhores, já comprei coisas das quais me arrependi. Fui depurando e descobrindo o meu caminho.
Abração

MARCELO HENRIQUE disse...

É isso aí Eder, concordo com tudo que escreveu! O colecionador deve ter como meta o seu bem-estar, fazer do hobby um prazer e não uma obrigação ou oportunidade de "aparecer". Claro que às vezes todos nós procuramos fazer uma loucura ou outra na caça de um item que desejamos, e que vai deixar nossa coleção mais interessante e bacana; mas sempre com pé no chão e limite, tanto financeiro quanto psicológico!

Abraço

Luiz Big Ben disse...

Muito legal esse texto ! Vi como uma verdadeira tomografia da alma e do espírito de um colecionador, se isto, possível fosse.
Eu, que humildemente tenho o atrevimento de me considerar como colecionador, pelo menos por decurso de tempo,reconheci todas essas facetas e fases do hobby, de seu meio e de seus seguidores, e confesso que eu próprio já fui um pouco de cada, nestes anos todos. A gente acaba sendo meio que médico e monstro ao mesmo tempo. Tal e qual Bilbo ou Frodo sofrendo a influência do "anel".Pois o colecionismo é uma febre.Importante, como em tudo na vida, é não perder o equilíbrio. No mais, o resto é só alegria e grandes amigos.Valeu mestre !

V@ndix. disse...

Texto muito bem elaborado que mostra exatamente o significado real de colecionar, parabéns e aprendi muito com essa matéria, obrigado!!

Eder (Mr. Blisterman) Pegoraro disse...

No texto desse artigo eu compartilho uma razoável experiência pessoal já como colecionador, observando o mercado e a postura de outros colecionadores que conheci e a minha própria.

Alguns podem entender o texto como uma crítica, mas é uma crítica construtiva, todos colecionadores tem seus momentos bons, seus momentos consumistas impulsivos...Todos temos nossas fases, nossos momentos...Acumuladores todos somos, afinal, como digo, a quantidade vêm naturalmente para quem coleciona, rapidamente ou devagar tanto faz, e ninguém que realmente gosta pensa em parar de colecionar...a gente pensa nas próximas aquisições de nossa inacabável lista de sonhos.
A ideia é destacar os pontos positivos e negativos desse hobby, para praticar mais os primeiros e tentar evitar os segundos.

Pessoalmente como disse, o "ato de colecionar" alguma coisa, sejam selos, tampinhas de garrafa, chaveiros, moedas, gibis ou brinquedos, qualquer coisa...é um ato naturalmente egoísta, afinal, colecionamos para nós mesmos e nosso prazer pessoal...
Então a última coisa que penso é na questão de "valores"...

O que aprendi mesmo é que o valor da satisfação pessoal que "cada figura, miniatura, etc" me traz não tem preço...Continuo curtindo e apreciando a 1ª figura que adquiri e me deu a ideia de colecionar aquilo em 1992, da mesma forma que a última que comprei ontem hehehe...Todas tem um valor único e especial...Algumas, as que foram presentes de amigos pessoais, essas então não tem preço em dinheiro que paguem o valor que significam...São pequenos souvenirs de minha história.

Seria eu se não fosse você disse...

Materia muito bem escrita, como meu caso que sou colecionador novo e tenho dificuldades de conseguir peças novas, pelo alto preço e pela inexistencial da minha escala que é de 2 polegadas (06 centimetros) sendo herios marvel e dc.

Caso alguém queira negociar robson_felicio@hotmail.com

vania disse...

Só uma palavra para definir este artigo : PERFEITO !!!!!!!!!

Angela Vasconcelos disse...

Adorei a sala de justiça! ~Gosto muito da Mulher Maravilha! E não possuo nenhuma boneca de coleção. Restauro bonecas antigas e coleciono algumas, mas minha coleção é modesta, e por motivos de espaço e de vontade também, é raro eu ter mais de uma boneca de uma linha. Adorei sobre pessoas que colecionam apenas para mostrar que possuem, mas nada sabem, conheço pessoas assim, desde livros que não leram, e filmes que não viram, é deprimente!

FerLando disse...

Acho que o grande problema de verdade nesse ramo são os vendedores que acham que qualquer coisa é raridade e colocam preços abusivos em produtos que vemos aos tantos por aí. Por que eles continuam fazendo isso? Ora, porque alguém com certeza ainda compra e movimenta esse mercado. Temos que lutar pelo mercado mais honesto.

Rodrigo Savino disse...

Excelente reportagem! Traduziu muito bem o que é ser um colecionador; e, as dificuldades que enfrentamos em nosso país para conseguirmos peças para nossas coleções! Parabéns!!!